Empolgação de Carrey, resiliência de Balboa

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Você já acordou demasiadamente empolgado? Naqueles dias em que um despertador só é suficiente para levantar da cama. Você não anda, saltita. Faz do banho palco do American Idol. Se arruma, olha no espelho e grita – em pensamento, afinal, você quer que a vizinhança continue lhe considerando são. Pois então, um dia eu acordei assim.

Saí para pegar o ônibus e parecia que ouvia ao redor de mim uma trilha sonora, que acompanhava a batida dos meus passos. Me senti o Jim Carrey naquela cena do “Todo Poderoso” em que ele caminha, todo feliz, descobrindo as infinitas possibilidades de seus recém adquiridos poderes divinos. “Agindo eu, quem impedirá?”, pensamos Carrey e eu.
Estava decidida a ser a melhor pessoa do mundo e certa de que nada poderia dar errado. Até que avistei meu primeiro alvo: uma senhora com a perna machucada, sentada na calçada, à espera de esmola. Meu coração queimou! Sem hesitar e com a coragem de uma adolescente determinada, fui até lá.

“Uma moedinha, moça?”

“Não tenho dinheiro, mas…”, respondi me sentindo o próprio Pedro, pronta a dizer “mas o que tenho te dou: levanta e ANDA, mulher!”. Ok, não falei isso, mas ofereci uma oração e uma prosa. Já me preparava para sentar ao lado dela, mas fui interrompida por um olhar fulminante – até então a senhora não havia me encarado nenhuma vez.

“A senhora não vai me dar dinheiro? Então saia daqui.”

Queria dar 25 enters agora para expressar o silêncio constrangedor que se seguiu por eternos segundos, mas minha habilidade editorial seria questionada, melhor deixa [sic]. A trilha sonora sumiu, o sorriso do rosto amarelou, um tijolo de gelo partiu aquele coração em chamas. Saí envergonhada, pensando no papel de idiota que fiz andando no estilo Jim Carrey, idiotamente empolgada com o mundo e a humanidade! Do ápice da alegria fui à mais profunda desesperança.

“Meu Deus! Uma moedinha vale mais que uma oração? Vale mais que um dedo de prosa? Meu dia já era, o mundo não presta, que vida indigna, não há sentido na vida assim, preciso de um chocolate”, meditou a maduríssima adolescente, que abandonou todos os planos ousados do dia.

Frustração. Quem nunca? Nossa empolgação está sujeita a esbarrar na vontade de outra pessoa, em uma circunstância, em um obstáculo, na necessidade de adiar o plano. Frustração acontece e acontecerá, mas você está pronto para seguir em frente, aprender algo, continuar com os planos? Lidar ao invés de se “encoitadar” (inventei a palavra porque nenhuma outra encaixou) talvez seja uma das atitudes mais maduras da vida adulta.

Ajuda um pouco se lembrarmos que, aqui no Ocidente, o “não me toque” é a regra, mas do lado de lá do mapa há um conceito de honra no sofrer. Mártires não são coitadinhos, injustiçados não são pobrezinhos – são heróis. Deus não poupou nem seu próprio Filho de sofrer (está na Bíblia, pode procurar: Romanos 8.32), por que nós não podemos sentir a dor da frustração?

Uma coisa é certa: dor dói, então não é uma delícia. Mas saber levantar e continuar é a pura definição de resiliência, característica tão comentada hoje, especialmente no mercado de trabalho. É possível, mas exige sair da bolha e aceitar que, caso eu me fira, ainda é possível seguir. E seguir sendo uma versão melhorada, que aprendeu, que teve a ferida curada, que não é vítima, mas protagonista.

Para acabar esse textão, vou parafrasear Rocky Balboa:

“Você, eu, ninguém vai bater tão forte como a vida. Mas não se trata de quão forte você bate, mas o quanto você é capaz de apanhar e continuar tentando. O quanto você é capaz de aguentar [a frustração] e continuar [empolgado]. É assim que se consegue vencer.”

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